terça-feira, 19 de março de 2013

Em missa inaugural, Papa Francisco pede pelos pobres e pelo ambiente

Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!
 


Saudação aos fiéis

Antes da missa, o novo pontífice, de 76 anos, saudou os milhares de fiéis que lotavam a Praça de São Pedro, no Vaticano, diante da Basílica, para acompanhar a cerimônia.

 O pontífice citou São Francisco de Assis, padroeiro do meio ambiente e inspirador de seu nome papal.

Ele afirmou que seu ministério é "cuidar das pessoas, principalmente dos mais pobres".
"Peço a todos aqueles que ocupam papel de responsabilidade nos meios econômico, politico e social, a todos homens e mulheres de boa vontade, para que cuidem da criação. Do desenho de Deus na Natureza. Cuidem um do outro, do meio ambiente", disse.
O pontífice, primeiro jesuíta a exercer o cargo, também apelou aos fiéis e principalmente às pessoas em postos de comando para que não deixem que os "sinais de destruição" dirijam o mundo.
"Vamos lembrar que o ódio, a inveja, a soberba sujam a vida", afirmou o pontífice. "Cuidar, então, significa vigiar nosso sentimento, nosso coração, porque é dali que vem as coisas boas e as más intenções. Aquelas que destroem e aquelas que constroem."
Francisco terminou a homilia pedindo a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro, São Paulo e de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o seu ministério.
 
Anel e pálio
Durante a missa, o pontífice recebeu o anel do pescador e o pálio, símbolos da autoridade papal.
Após a cerimônia, começou o tradicional "beija mão", em que membros de delegações de 132 países e líderes religiosos de todo o mundo fizeram fila para cumprimentar o pontífice.
 
 
 
A cerimônia demorou cerca de uma hora e meia.
 
 
 
Entre os chefes de Estado presentes no Vaticano, estava a presidente brasileira Dilma Rousseff.


 
 
 
 
 




Homilia do Papa Francisco na Missa de início do Ministério Petrino
 
 
Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço ao Senhor por poder celebrar esta Santa Missa de início do ministério petrino na solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e patrono da Igreja universal: é uma coincidência densa de significado e é também o onomástico do meu venerado Predecessor: acompanhamo-lo com a oração, cheia de estima e gratidão.
Saúdo, com afecto, os Irmãos Cardeais e Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e as religiosas e todos os fiéis leigos. Agradeço, pela sua presença, aos Representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, bem como aos representantes da comunidade judaica e de outras comunidades religiosas. Dirijo a minha cordial saudação aos Chefes de Estado e de Governo, às Delegações oficiais de tantos países do mundo e ao Corpo Diplomático.
Ouvimos ler, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser custos, guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Exort. ap.Redemptoris Custos, 1).
Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egipto e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus.
Como vive José a sua vocação de guardião de Maria, de Jesus, da Igreja? Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projecto d’Ele que ao seu. E isto mesmo é o que Deus pede a David, como ouvimos na primeira Leitura: Deus não deseja uma casa construída pelo homem, mas quer a fidelidade à sua Palavra, ao seu desígnio; e é o próprio Deus que constrói a casa, mas de pedras vivas marcadas pelo seu Espírito. E José é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão; mas vemos também qual é o centro da vocação cristã: Cristo. Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!
Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos guardam-se reciprocamente, depois, como pais, cuidam dos filhos, e, com o passar do tempo, os próprios filhos tornam-se guardiões dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem. Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus!
E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido. Infelizmente, em cada época da história, existem «Herodes» que tramam desígnios de morte, destroem e deturpam o rosto do homem e da mulher.
Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.
A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!
Hoje, juntamente com a festa de São José, celebramos o início do ministério do novo Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, que inclui também um poder. É certo que Jesus Cristo deu um poder a Pedro, mas de que poder se trata? À tríplice pergunta de Jesus a Pedro sobre o amor, segue-se o tríplice convite: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). Apenas aqueles que servem com amor capaz de proteger.
Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.
Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!
Peço a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro e São Paulo, de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o meu ministério, e, a todos vós, digo: rezai por mim! Amen.
 Cidade do Vaticano, (Zenit.org)

Jesus tem uma capacidade especial de esquecer.

Homilia do papa Francisco durante Missa na paróquia de Santa Ana
 
Como é belo isto: primeiro, Jesus a sós na montanha, rezando. Orava sozinho (cf. Jo 8,1). Depois, ele voltou para o templo e todo o povo foi até ele (cf. vers. 2). Jesus em meio ao povo. No fim, eles o deixaram sozinho com a mulher (cf. vers. 9). A solidão de Jesus! Mas uma solidão fecunda: a solidão da oração com o Pai e a solidão, tão bela, e que é justamente a mensagem de hoje da Igreja, da sua misericórdia para com aquela mulher.

Também há uma diferença no meio do povo: havia todas aquelas pessoas que iam até ele; ele se sentou e começou a ensinar. O povo que queria ouvir as palavras de Jesus, o povo de coração aberto, necessitado da Palavra de Deus. E havia outros que não ouviam nada, que não podiam ouvir; e eram aqueles que tinham ido até ali com aquela mulher: “Mestre, esta é uma tal, uma qual... Temos que fazer o que Moisés mandou fazer com essas mulheres” (cf. vv. 4-5).

Nós também, acredito, somos um povo que, por um lado, quer escutar Jesus, mas, por outro, às vezes gosta de bater nos outros, de condenar os outros. A mensagem de Jesus é esta: a misericórdia. Para mim, e eu digo isso com humildade, é a mensagem mais forte de Nosso Senhor: a misericórdia. Ele mesmo disse: eu não vim para os justos; os justos se justificam sozinhos. Senhor bendito, se tu podes fazer, faz, porque eu não posso! Mas eles acreditam que podem fazê-lo. Eu vim para os pecadores (cf. Mc 2,17).

Pensem naquela conversa depois do chamado de Mateus: “Mas ele anda com os pecadores!” (cf. Mc 2, 16). E ele veio para nós, quando reconhecemos que somos pecadores. Mas se nós somos como aquele fariseu, diante do altar: “Obrigado, Senhor, porque eu não sou como todos os outros homens, nem como aquele que está à porta, como aquele publicano” (cf. Lc 18,11-12), então nós não conhecemos o coração do Senhor e nunca teremos a alegria de sentir esta misericórdia! Não é fácil confiar-se à misericórdia de Deus, porque ela é um abismo incompreensível. Mas temos que nos confiar! “Ah, padre, se o senhor conhecesse a minha vida, não diria isso”. “Por quê? O que você fez?”. “Ah, eu fiz tantas coisas graves”. “Melhor! Vá até Jesus. Ele gosta quando você lhe conta essas coisas”. Ele esquece, ele tem uma capacidade de esquecer, especial. Ele esquece, te beija, te abraça e te diz apenas: “Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante, não peques mais” (Jo 8, 11). Ele só nos dá esse conselho. Depois de um mês, já estamos de novo nas mesmas condições... Voltemos para o Senhor. O Senhor nunca se cansa de perdoar, nunca! Somos nós que nos cansamos ​​de pedir perdão a ele. E peçamos a graça de nunca nos cansarmos de pedir perdão, porque ele nunca se cansa de perdoar. Peçamos esta graça.

 Palavras no final da Santa Missa

Alguns de vocês, aqui, não são paroquianos, como estes padres argentinos que estão aqui, e o meu bispo auxiliar, que por hoje serão paroquianos. Mas eu quero lhes apresentar um padre que veio de longe, que trabalha com os jovens da rua, com os usuários dependentes de drogas. Ele fez uma escola para eles, realizou muitas coisas para que eles conheçam Jesus. E todos aqueles jovens de rua agora trabalham, estudam, têm capacidade de trabalho, acreditam e amam Jesus. Gonzalo, por favor, venha saudar as pessoas. Rezem por ele. Ele trabalha no Uruguai, é o fundador do liceu João Paulo II e faz esse trabalho. Eu não sei como ele chegou aqui hoje. Depois vou saber. Obrigado. Rezem por ele.


Cidade do Vaticano, (http://www.zenit.org/pt/articles/jesus-tem-uma-capacidade-especial-de-esquecer)
 

sábado, 16 de março de 2013

A visita a Santa Maria Maior.


A visita a Santa Maria Maior, a etapa na Casa do Clero: tudo em nome de um estilo decididamente informal. 


A reportagem é de Alessandro Speciale, publicado no sítio Vatican Insider, 14-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O seu primeiro dia como 

Papa Francisco começou cedo, pouco depois das 8 horas, com a visita – prometida na quarta-feira à noite durante o seu primeiro discurso público – à basílica mariana de Santa Maria Maior.


A visita logo foi uma oportunidade para continuar definindo o seu estilo papal em nome da simplicidade: Francisco chegou à basílica em um carro da Gendarmeria Vaticana, sem ser acompanhado por um longo cortejo de carros. Com ele estava, dentre outros, Dom Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia, ao lado do novo pontífice, como exigido pelo seu cargo.

 
A visita do Papa Bergoglio Santa Maria Maior foi privada – explicou o porta-voz vaticano, padre Federico Lombardi, durante o seu encontro diário com os jornalistas – em um lugar particularmente significativo para os jesuítas: abaixo do ícone de Maria "Salus Populi Romani", conservada na capela Borghese, diante do qual ele parou por cerca de dez minutos em oração silenciosa, a Basílica do Esquilino também hospeda o altar em que Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, celebrou a sua primeira missa.

 
Na basílica, Francisco também parou brevemente em oração diante do altar-mor, onde, segundo a tradição, está conservado um fragmento da manjedoura onde foi deposto o menino Jesus, e em frente ao túmulo de São Pio V, na Capela Sistina.

 
No caminho de volta, o neopapa pediu que o motorista fizesse uma mudança de percurso: Francisco quis parar na Casa do Clero, na Via della Scrofa, onde estivera hospedado nas semanas anteriores ao conclave. O Papa Bergoglio voltou para retirar as suas coisas e cumprimentar a equipe pessoalmente. E, antes de ir embora, para o espanto dos funcionários da Prefeitura da Casa Pontifícia, também pediu para pagar a conta – "para dar o bom exemplo", disse o padre Lombardi.

 
O estilo informal e direta do novo pontífice certamente provocará muitos problemas para os homens da Gendarmaria Vaticana encarregados pela sua segurança. Mas, lembrou o porta-voz vaticano, "os responsáveis pela segurança estão a serviço do papa e eles sabem disso. Eles tentam interpretar o que o papa quer e adaptar o seu estilo ao estilo pessoal dele – na consciência de que não são eles que ditam o jogo, mas sim o papa".

Um estilo que parece surgir a partir de muitos dos detalhes nessas horas. Nessa quarta-feira, contou Lombardi, o Papa Francisco "aceitou a obediência dos cardeais em pé", sem utilizar o pequeno trono branco sobre-elevado que havia sido preparado para ele. Ou o porta-voz apontou para a atenção ao hábito muito simples, sem capa, usado durante a bênção Urbi et Orbi de quarta-feira à noite, com uma simples cruz de metal no pescoço, não de ouro e sem ornamentos, recebida ainda antes de se tornar bispo.

Também o fato de "ter querido o Vigário de Roma ao seu lado é um aspecto novo, para fazer referência particular ao povo de Roma", acrescentou Lombardi, até o gesto de pedir que os fiéis rezassem sobre ele antes de dar a bênção.

 
O porta-voz vaticano também contou um episódio que ocorreu na quarta-feira, ao término da sua primeira aparição pública: Francisco quis voltar para Santa Marta com o micro-ônibus, junto com os outros cardeais, sem utilizar o carro oficial com a placa "SCV 1", que havia sido preparado para ele. "Que Deus lhes perdoe", disse Bergoglio, depois de jantar com os cardeais.

 
Na manhã dessa quinta-feira, retornando ao Vaticano, o novo papa se encontrou com alguns colaboradores em Santa Marta e começou a organizar o seu novo "trabalho". À tarde, na Capela Sistina, a missa com os cardeais eleitores – onde fez o seu primeiro discurso "de improviso" – e a ruptura dos selos do Apartamento pontifício, onde ele entrará daqui a poucos dias, depois de poucos mas essenciais trabalhos de reestruturação. Sempre, já é possível imaginar, em nome da sobriedade.


Quando caminhamos sem a Cruz, não somos discípulos do Senhor.


 
ROMA, 14 de Março de 2013 (Zenit.org) - Nesta quinta-feira, às 17 horas, na Capela Sistina, o Santo Padre Francisco celebrou Missa Pro Ecclesia (pela Igreja) com os cardeais eleitores que participaram do Conclave. Durante a celebração eucarística, após a proclamação do Santo Evangelho, comentando as leituras (Primeira leitura: Isaías 2: 2-5; Segunda Leitura: 1 Pedro 2, 4-9; Evangelho: Mt 16, 13-19), o Papa Francisco pronunciou a seguinte homilia:

Nessas três leituras, vejo que há algo em comum: o movimento. Na primeira leitura, o movimento no caminho; na segunda leitura, o movimento na edificação da Igreja; na terceira, o Evangelho, o movimento na confissão. Caminhar, edificar, confessar.
 
Caminhar. “Casa de Jacó, vinde, caminhemos à luz do Senhor” (Is 2,5). Esta é a primeira coisa que Deus disse a Abraão: caminhe na minha presença e seja irrepreensível. Caminhar: a nossa vida é um caminho e quando paramos, as coisas não correm bem. Caminhar sempre, na presença do Senhor, à luz do Senhor, tentando viver a irrepreensibilidade que Deus pedia a Abraão, em sua promessa.

Edificar. Edificação da Igreja. Fala-se de pedras: as pedras têm consistência, pedras vivas, pedras ungidas pelo Espírito Santo. Edificar a Igreja, Esposa de Cristo, sobre a pedra angular que é o próprio Senhor. Aqui está outro movimento da nossa vida: edificar.
Terceiro, confessar. Podemos caminhar o quanto quisermos, podemos edificar muitas coisas, mas se não confessamos Jesus Cristo, as coisas não correm bem. Nos tornaremos uma ONG piedosa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor. Quando não caminhamos, paramos. Quando não edificamos sobre a pedra, o que acontece? Acontece o que acontece com as crianças quando elas constroem castelos de areia na praia, tudo desaba, não tem consistência. Quando não confessamos Jesus Cristo, me vem em mente as palavras de Léon Bloy: "Quem não prega o Senhor, prega o diabo". Quando não se confessa Jesus Cristo, se confessa a mundanidade do diabo.
 
Caminhar, edificar-construir, confessar. Mas não é tão fácil, porque no caminhar, no construir, no confessar, às vezes acontecem terremotos, acontecem movimentos que não são os movimentos próprios do caminho: são movimentos que nos puxam para trás.
 
O Evangelho prossegue com uma situação especial. O próprio Pedro que confessou Jesus Cristo, diz: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Eu o sigo, mas não falemos de Cruz. Isso não tem nada a ver. Eu te seguirei com outras possibilidades, sem a Cruz. Quando caminhamos sem a Cruz, quando edificamos sem a Cruz e quando confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos Bispos, Padres, Cardeais, Papas, mas não discípulos do Senhor.

Eu gostaria que todos, após esses dias de Graça, tenhamos a coragem, exatamente a coragem de caminhar na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor; de construir a Igreja no sangue do Senhor, que foi derramado na Cruz; e de confessar a única glória: Cristo Crucificado.

Um nome, uma missão.


Artigo de Vito Mancuso

 

 
Francisco é o santo que, mais do que qualquer outro, no segundo milênio cristão, representou o ideal da pureza evangélica, o ideal de viver as bem-aventuranças, longe das seduções do poder e da glória.


A opinião é do teólogo italiano 
Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 14-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
 

Talvez seja a hora boa. Talvez hoje, a distância de meio século, a renovação em nome do Evangelho que o Papa João XXIII e o 
Vaticano II haviam desejado e empreendido pode finalmente tornar-se realidade. Talvez os cardeais eleitores realmente ouviram o Espírito Santo, operação que não contém nada de mágico, mas é somente a pura disposição da mente e do coração a querer sempre e somente o bem, porque quando um homem dispõe a sua mente e o seu coração na busca do bem, o Espírito da santidade age nele, seja ele crente ou não crente. E eu sinto que os cardeais eleitores fizeram isso, afastando qualquer cálculo político ou diplomático, todo raciocínio em nome do poder, e escolhendo um homem de Deus.

Tratou-se de uma escolha absolutamente inesperada, o nome de 
Jorge Mario Bergoglio não figurava quase nunca entre as listas dos principais papáveis. Mas se tratou, acima de tudo, de uma escolha completamente inovadora: desde essa quarta-feira, temos o primeiro papa não europeu, o primeiro papa latino-americano, o primeiro papa que escolheu se apresentar ao mundo como "bispo de Roma" e, sobretudo, o primeiro papa que escolheu se chamar Francisco.

Na união dessas quatro novidades absolutas, unidas à oração que logo caracterizou a sua primeira aparição como papa, eu entrevejo aquela esperança de renovação em nome do Vaticano II que Francisco pode realizar e da qual a Igreja tem uma imensa necessidade. Também não podemos calar o fato de que Bergoglio, no conclave de 2005, foi o principal antagonista de Ratzinger: os cardeais eleitores, portanto, não só não escolheram um ratzingeriano de ferro como Scola ou como Schönborn, mas escolheram aquele que disputou com Ratzinger a maioria dos votos no conclave.


Essa escolha contém um julgamento não totalmente positivo sobre os oito anos de pontificado do papa emérito?


Mas o que mais chama a atenção é o nome que o novo pontífice escolheu para si. O que significa ter decidido se chamar FranciscoBergoglio não é um franciscano, é um jesuíta, e, se tivesse seguido o seu coração, deveria ter se chamado Inácio, visto que Santo Inácio de Loyola é o fundador dos jesuítas. Mas ele optou se chamar Francisco, enfatizando com isso não a sua história pessoal (mesmo que quem o conheça diga que ele sempre viveu em absoluta simplicidade, longe do luxo que a qualificação de arcebispo de Buenos Aires lhe permitiria), mas a intenção animadora do seu programa de governo em nome do testemunho profético e da radicalidade evangélica.

Francisco é o santo que, mais do que qualquer outro, no segundo milênio cristão, representou o ideal da pureza evangélica, o ideal de viver as bem-aventuranças, longe das seduções do poder e da glória.

Penso que todos têm em mente o afresco de Giotto na Basílica Superior de Assis, que representa o sonho de Inocêncio III: ele vê um homem vestido com um simples hábito que sustenta uma igreja que está prestes a cair, e, obviamente, esse homem é Francisco, o pobrezinho de Deus, cuja vinda, em sonho, foi antecipada a Inocêncio III.

Ora, ninguém pode saber o que Jorge Mario Bergoglio sonhou nessas noites, quando sentia que se aproximava a escolha dos cardeais eleitores sobre ele, mas certamente o fato de que ele tenha escolhido se chamar Francisco indica, do modo mais explícito, a sua clara percepção da gravidade da situação que a Igreja Católica está vivendo e, principalmente, a sua convicção com relação à saída dela: a radicalidade evangélica, a pobreza, a mansidão, a distância do poder, o amor por todos os seres humanos e pelos animais, o cuidado de toda a criação.


O primeiro e indispensável passo que a Igreja deve dar é voltar a crer no Evangelho acima de tudo nas suas estruturas de comando: a evangelização, antes de se referir ao mundo, refere-se à hierarquia da Igreja, em primeiro lugar à Cúria, e pela escolha realizada parece que os cardeais entenderam perfeitamente tudo isso e identificaram aquele que, entre eles, era o homem certo para essa reviravolta em nome da mansidão e, ao mesmo tempo, do rigor.


Nessa quarta-feira, ao ouvir o novo papa falar pela primeira vez, chamou-me muito a atenção o fato de ele se voltar aos fiéis e ao mundo chamando-se, mais de uma vez, de "bispo de Roma". Ou, melhor, pode-se dizer que, nessa quarta-feira, Bergoglio não se apresentou ao mundo; de fato, não disse uma só palavra em espanhol para a sua terra, não disse uma só palavra em inglês, dirigindo-se à televisão.


Ele se apresentou somente à sua diocese, à cidade de Roma, e não por acaso citou o nome do seu vigário para a cidade, o cardeal Vallini, querendo-o ao seu lado na sacada. Isso é muito importante. De fato, mostra que as indicações do
Vaticano II e sobretudo do Novo Testamento, mais do que nunca, são claras para o Papa Francisco.

Como papa, ele quer, acima de tudo, ser um bispo, o bispo de uma cidade, e certamente sabe que só pode ser verdadeiramente papa em fidelidade ao Evangelho e ao Vaticano II somente na medida em que nunca deixar de ser bispo, isto é, um guia concreto em contato com os problemas reais das pessoas reais.


Bergoglio é jesuíta, é manso e, ao mesmo tempo, austero, amante da simplicidade, da pobreza, de uma vida em nome do essencial, desprovido de decorações barrocas e de linguagem simples e seca.


Assemelha-se muito a 
Carlo Maria Martini, de quem certamente era amigo. E talvez aqueles 200 anos com os quais Martini, na sua última e profética entrevista do dia 8 de agosto passado, marcou a distância entre a Igreja e o mundo ("a Igreja retrocedeu 200 anos"), com Francisco, estão destinados a se preencher.
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518432-um-nome-uma-missao-artigo-de-vito-mancuso
Sexta, 15 de março de 2013


É a melhor escolha possível. Que agora ele não aceite compromissos.


Entrevista com Hans Küng

 

"Estou feliz, é a melhor escolha possível, ele conhece e ama a vida simples, humilde, real, à externo ao sistema romano da Cúria. Espero que ele aprove as reformas necessárias e uma reestruturação radical da cúpula como primeiro sinal". O professor Hans Küng, teólogo católico, exulta, parece falar de uma possível perestroika vaticana.
A reportagem é de Andrea Tarquini, publicada no jornal La Repubblica, 14-03-2013.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.


Professor Küng, o que o senhor diz a respeito?
Estou feliz. A escolha desse homem, justamente ele, surpreendentemente, é uma verdadeira escolha de qualidade.

Isto é, ainda melhor do que os esperados papáveis reformadores?

Sim, insisto, é a melhor escolha. Primeiro, é um latino-americano, e estou muito feliz com isso. Não só isso: é também um latino-americano de mente aberta. É um jesuíta, que certamente dispõe de uma formação e preparação teológicas muito sólidas. É um homem que sempre levou uma vida simples, não em grandes e suntuosos palácios de poder. Um homem acostumado a andar entre os fiéis, até mesmo de pés descalços, com o báculo de pastor. Ainda com os primeiros gestos, deu conselhos e sinais: não pediu nem buscou aplausos triunfais, nem palavras pomposas, mas sim a oração em silêncio.

Ou seja, também é um bom começo?
Sim, justamente, um começo de sucesso com sinais certos. E, por fim, mas não por último, acho significativa a escolha do nome: Francisco.

Pois bem, como o senhor a interpreta?

Um cardeal que, no mundo de hoje e com o pano de fundo da grave crise da Igreja, escolhe não nomes que remetem aos seus antecessores recentes, mas sim justamente esse nome sabe exatamente que se remete e se referem a São Francisco de Assis. Francisco de Assis foi a alternativa ao programa da Igreja vista e vivida como poder. Foi a antítese do maior e mais importante papa de poder da Idade MédiaInocêncio III, que encarnava a Igreja do poder: Francisco viveu e testemunhou a Igreja das pessoas simples, dos pobres, dos modestos. Eu só espero que Francisco possa realmente realizar na Igreja e na relação entre a Igreja e o mundo tudo o que certamente ele se propõe a fazer.

Portanto, ele não é o candidato da Cúria?

Certamente não, mas sim candidato das vozes progressistas da Igreja, incluindo os progressistas entre os cardeais alemães.

O que isso significa para a Igreja na sua profunda crise?

É a pergunta decisiva. A resposta depende de se e como ele poderá lançar as reformas. Se e como as reformas necessárias e não feitas, que se acumularam na Igreja de hoje, serão realizadas e se imporão, ou se, ao invés, tudo continuará como até agora. Se o novo papa as realizar, ele encontrará um monte de apoio, muito além do âmbito da Igreja Católica e dos fiéis. Caso contrário, o grito "indignai-vos!" vai se espalhar até dentro da Igreja e imporá reformas de baixo. Eu defendo as reformas guiadas de cima, mas agora a escolha está realmente nas suas mãos. A comunidade da Igreja não se contentará mais com belas palavras. A paciência de muitos católicos está no fim.

O que a sua biografia permite prever?

Ela dá espaços de esperança. Eu não escondo o fato de que ele viveu no tempo da ditadura militar argentina. Certamente não foi fácil, assim como não foi fácil viver dignamente como fiéis na Alemanha sob o nazismo. Muitas vezes ele foi criticado, mas certamente se explicará. O ponto não é esse. A pergunta-chave é o que ele fará pela Igreja e pelo mundo. Se ele realmente tem o espírito ecumênico e envolverá as outras Igrejas. Se ele reabrir as janelas que o seu antecessor fechou, se voltar à linha de João XXIII, então realmente será Francisco.

Quais poderiam ser os seus melhores primeiros sinais?

Como primeiro sinal, poderia escolher como secretário de Estado não um representante do sistema romano, mas sim uma pessoa pronta para as reformas e de espírito ecumênico: não precisa ser um cardeal, mas deve estar pronto para realizar a reforma da Cúria. Espero que não sejam assumidos compromissos com o partido da Cúria, do tipo "você é o papa, mas a Cúria continua nas nossas mãos".

Considerando, também, a velocidade da eleição, esse perigo é muito grande?

Eu não faço especulações. Eu indico cinco pontos. Primeiro, o secretário de Estado, justamente. Segundo, o novo papa deveria substituir e não confirmar os responsáveis dos dicastérios vaticanos. E escolher personalidades competentes, até mesmo externas do Colégio dos Cardeais. Terceiro, deveria introduzir a colegialidade na Cúria, constituir um gabinete responsável por escolhas coletivas. Quarto, deveria introduzir a colegialidade com os bispos, reativar o Conselho dos Bispos como órgão de decisão e não somente consultivo. Quinto, deveria vigiar para que dioceses, comunidades, fiéis individuais tenham um direito de resistência e de crítica reconhecido. Isso está em conformidade com o Evangelho. E os católicos de todo o mundo estão insatisfeitos com esse atraso das reformas.

Esse é o ponto mais difícil?

Veremos se ele terá a força necessária. As reformas necessárias são conhecidas: o papel da mulher, a encíclica Humanae Vitae, portanto a contracepção, a ordenação de mulheres, o ecumenismo com as outras Igrejas, a abertura da Igreja aos dramas do mundo, da moral sexual na África ao restante.

O primeiro papa não europeu refortalecerá ou enfraquecerá a Igreja europeia em crise? 
Ele só pode ajudá-la. Os problemas da Igreja, do celibato à crise das vocações, são problemas mundiais. Busquemos ser felizes pelo fato de um papa extraeuropeu abrir novas perspectivas.


O senhor irá buscar o diálogo e o encontro com ele?

Não é o mais importante. Ele deve se ocupar da Igreja.
 
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518430-e-a-melhor-escolha-possivel-que-agora-ele-nao-aceite-compromissos-entrevista-com-hans-kueng
Sexta, 15 de março de 2013

Papa Fransciso, ainda Bergoglio. Diz: É mais cômodo ser coroinha que protagonista


 
Despedida do cardeal Bergoglio dos bispos argentinos

BRASíLIA, 14 de Março de 2013 (Zenit.org) - Reapresentamos a seguir um artigo publicado por ZENIT espanhol em novembro de 2011, relatando uma entrevista que a agência argentina AICA fez ao cardeal Bergoglio, hoje o papa Francisco, quando ele se despedia da presidência da Conferência Episcopal Argentina.
 


O cardeal Bergoglio se despede da presidência

 BUENOS AIRES, quarta-feira, 9 de novembro de 2011 (ZENIT.org) - O cardeal Jorge Bergoglio se despediu da presidência do episcopado argentino com uma longa entrevista. Ele repassa a situação da Igreja, afirma que os leigos correm o risco da “clericalização” e diz que é mais fácil ser coroinha que protagonista.
Sobre Buenos Aires, Bergoglio afirma, na entrevista concedida à agência AICA, que muitas coisas ainda precisam ser feitas: “Temos que continuar caminhando e ir fazendo aos poucos. Esta é uma cidade que de noite tem três milhões de habitantes e de dia tem oito”.
 
O cardeal abordava a pastoral urbana e o congresso realizado no final de agosto na região de Buenos Aires, que “nos fez muito bem”. “Ele nos fez enxergar que o monocultural não existe. Diziam no congresso que existem seis ou sete cidades imaginárias em Buenos Aires. O grande esforço não é só de inculturação, que sempre tem que ser feito, mas de compreender as linguagens que vão surgindo, que são totalmente diferentes. Aparecida tem algumas considerações muito fortes sobre a pastoral urbana”.
 
Como ele vê os leigos na Argentina? “Há um problema, eu disse outras vezes: a tentação da clericalização. Nós, os padres, tendemos a clericalizar os leigos. Não nos damos conta, mas é como contagiá-los com o nosso estilo. E os leigos, não todos, mas muitos, nos pedem de joelhos para clericalizá-los, porque é mais cômodo ser coroinha do que ser protagonista de um caminho leigo. Não podemos cair nessa armadilha, é uma cumplicidade pecadora. Nem clericalizar, nem pedir para ser clericalizado. O leigo é leigo e tem que viver como leigo com a força do batismo, que o habilita para ser fermento do amor de Deus na própria sociedade, para criar e semear esperança, para proclamar a fé, não de cima de um púlpito, mas a partir da vida cotidiana. E carregando a sua cruz de cada dia, como todo mundo. E a cruz do leigo, não a do padre. A do padre, o padre que carregue, que Deus deu ombro suficiente para o padre carregá-la”.
 
O que Bergoglio pensa do conceito do papa Bento XVI, que fala da "beleza tecnológica"?
“Sim, as instituições eclesiásticas sempre ressaltaram mais a categoria ‘verdade’ do que a ‘bondade’ e a ‘beleza’. A comunicação exige as três. Comunicar-se é dizer uma coisa que você entende que é verdade, e dizê-la com bondade e com beleza. As três juntas. As instituições eclesiásticas ainda não desenvolveram, em particular, a dimensão da beleza. Eu acredito que nós temos que trabalhar muito nisso. A beleza na mensagem, na transmissão, a vida, mesmo, a captação das coisas, as coisas são verdadeiras, boas e belas. E se falta alguma coisa, falta algo das três. Uma verdade que não é boa acaba sendo uma bondade que não é verdadeira. Elas caminham juntas. O mesmo vale para a beleza. A relação tem que ir por esse caminho. E nós temos que fazer um esforço para que isso amadureça e progrida”. Neste ponto, Bergoglio recomenda a leitura do documento conciliar Inter Mirifica, sobre os meios de comunicação social.
 
Qual é a sua visão do CELAM? “Ele cresceu, está amadurecendo. De algo meramente funcional, porque tinha que ser assim quando começou, ele se transformou em algo inspirador. A última Conferência do Episcopado, em Aparecida, é mais fermento de inspiração do que uma ação funcional. É um chamado à criatividade, define linhas missionais, não termina com um documento, como as conferências anteriores, mas com uma missão. Isso é muito importante”.
 
Sobre Aparecida, suas luzes, suas sombras, ele afirma: “A inspiração do Espírito é a grande luz que aconteceu ali. Sombras são as mil e uma coisinhas que travavam e que nós tivemos que superar. Mas eu não me atreveria a dizer que a maior luz foi esta. Acredito que tudo foi um complexo de luzes e sombras e que a luz venceu. É a primeira conferência geral do episcopado que foi feita em um santuário mariano que tem capacidade para 35.000 pessoas. Todos os dias, nós concelebrávamos, os duzentos e tantos bispos, com o povo. Nos dias de semana vinha pouquinha gente: duzentas, trezentas pessoas, pouquinhas… Sábado e domingo, trinta mil. E as sessões eram embaixo do santuário, em instalações que existem lá para os peregrinos. Então a nossa música de fundo eram os cantos do santuário. A voz do povo de Deus. Essa foi uma das grandes luzes de Aparecida: o povo de Deus envolvido na conferência, em um santuário mariano, a casa da Mãe”.
 

Para acessar a entrevista completa, em castelhano: