sábado, 1 de agosto de 2020

Artigo de agosto 2020- Padre Aparecido Neres Santana, CSS


CORAGEM, O SENHOR ESTÁ CONTIGO!





Neste Artigo Bíblico-Catequético-Missionário refletiremos sobre o Evangelho de São Mateus (14,22-33), do 19ª Domingo do Tempo Comum. O texto chama a atenção para a presença do Reino nas coisas da vida. Por isso, as parábolas mostram que o anúncio de Reino provoca reações a favor e contra a vida. Jesus dirige-se, sobretudo, aos discípulos para instruí-los sobre os valores e os mistérios do Reino. É neste contexto de catequese sobre o Reino que devemos situar o episódio que hoje nos é proposto. Neste ensinamento catequético, Mateus faz um comunicado à Igreja do seu tempo, para que assuma uma atitude de confiança corajosa naquele que é o Filho de Deus. O cenário do nosso texto situa-nos na área do mar de Tiberíades. O mar era para os judeus símbolo do mal, lugar dos monstros, dos demônios e de todas as forças que se opunham à vida e à felicidade do homem. Jesus envia os seus discípulos em missão, além-mar: “Forçou os discípulos a embarcar e a aguardá-lo na outra margem...” (Mt 14,22). Por isso, o centro do texto está no barco que, no alto-mar, enfrenta a tempestade. De um lado, os discípulos percebem que Jesus vence o mal, ao andar sobre as águas – Ele pisa o mal. Por outro percebem que é no confronto (dos discípulos, das comunidades) com as forças contrárias à vida, representadas pelo Império Romano, que veem suas forças diminuídas, com sua fé fraca, tímida e insuficiente pra levar a missão adiante. O medo do martírio era latente o tempo todo e todo o tempo. Entende- -se que o barco simboliza a Igreja, que enfrenta uma perseguição implacável, no anúncio do Reino. Não obstante esse cenário de temor, a Igreja (discípulos) percebe que Cristo está presente para salvá-la. Por isso, nada de temor. Confiar-se a Ele é a condição indispensável para não afundar no mar da vida. Ademais, no momento mais dramático, Jesus, disse: “Tende confiança. Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt,1 14,27). Para as comunidades, tanto as de ontem como as de hoje, era e é, muito importante, ouvir e sentir a presença de Jesus, acalmando as tempestades, como neste momento de pandemia. Talvez tenhamos que gritar: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo!”. Vamos em frente, pois tens um grande caminho a percorrer.

Para refletirmos: Estamos vivendo o distanciamento social, aprendendo a viver a maior parte do tempo em casa, no barquinho da família, nossa Igreja doméstica. Como está o barquinho da sua vida? Da sua família? Da sua comunidade? Da iniciação à Vida Cristã? Talvez seja o momento mais forte da tempestade, já vivida pela humanidade como um todo, por isso, precisamos fazer a oração silenciosa, como a de Jesus na montanha, e ter a percepção de Deus falando na simplicidade da vida: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo!” (v.27).

Pe. Aparecido Neres Santana - Assessor Eclesiástico da Comissão AB-C Diocese de Santos/SP.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Comissão elabora subsídio para o Mês Vocacional.

O Mês Vocacional, instituído no Brasil há quase 40 anos, vem celebrando e homenageando todas as vocações no decorrer das semanas de agosto.  Em cada uma das semanas deste mês, de domingo a sábado, todos são convidados a voltar as atenções para um grupo específico de vocações.
Neste ano, na primeira semana, de 2 a 8 de agosto, será recordada as vocações dos diáconos, presbíteros e bispos (ministérios ordenados). Na segunda semana, de 9 a 15, é a vez de lembrar da vocação do pai,  mãe e dos filhos (a família). Neste caso, em específico, a Pastoral Familiar celebra a Semana Nacional da Família, com subsídios específicos.
Na terceira semana do mês de agosto, de 16 a 22, é lembrada a vocação das pessoas de vida consagrada (aqueles que fazem os votos de Castidade, Pobreza e Obediência). A Semana Nacional da Vida Consagrada, a partir deste ano, é uma novidade no mês vocacional.
A quarta semana, de 23 a 29, a vocação dos cristãos leigos e leigas e seus diversos serviços na comunidade (ministérios não ordenados) é lembrada. E, no último domingo, dia 30, é celebrado o Dia dos Catequistas, homenageando e valorizando essa vocação tão importante nas comunidades.
Foi justamente pensando em formas de celebrar de forma concreta o mês vocacional e oferecer apoio aos animadores vocacionais que a Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) elaborou o subsídio “Amados e chamados por Deus”.
“Que todos possam adquirir esse subsídio e utilizá-lo nas bases, com todos os membros das equipes vocacionais”, afirma o assessor da Comissão, padre Juarez Albino Destro.
No subsídio, que está disponível no site da Editora da CNBB, há três propostas de terço vocacional, que poderão ser recitados em família ou em grupo, e três opções de “eventos” ou iniciativas que poderão ser organizados na comunidade: um encontro vocacional para despertar vocações; uma vigília vocacional; e uma leitura orante vocacional. Poderão ser realizados envolvendo – preferencialmente – os jovens.
As propostas, segundo a apresentação do documento, poderão ser utilizadas de acordo com as realidades e necessidades, sem uma ordem sequencial obrigatória. Para a abertura do mês vocacional no dia 1º, um sábado, há a celebração da Vigília Vocacional, por exemplo. E, na conclusão do mês, no dia 31, uma segunda-feira, o Terço Vocacional com os Mistérios da Luz.
Padre Juarez explica, ainda, que o subsídio trouxe a Mensagem do Papa para o 57º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. “Este ano ele resgatou quatro palavras vocacionais: gratidão, louvor, coragem, tribulação. São palavras bastante interessantes de serem aprofundadas para as reflexões durante esse mês de agosto e durante o ano inteiro”, salienta.
“Desejamos que os animadores vocacionais possam celebrar o mês vocacional com muita alegria e disposição, abusando da criatividade e contagiando as comunidades eclesiais para que se sintam vocacionadas e dispostas a dizer sim ao chamado de Deus, de ser operário e operária na messe do Senhor”, finaliza a Comissão na carta de apresentação do documento.

Fonte: CNBB - 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

NOVO DIRETÓRIO DE CATEQUESE: ATUALIZANDO O EVANGELHO


Após o "Diretório Catequético Geral" de 1971 e o "Diretório Geral de Catequese" de 1997, é publicado hoje o novo "Diretório de Catequese", elaborado pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. O documento foi aprovado pelo Papa Francisco, em 23 de março de 2020, memorial litúrgico de São Turíbio de Mogrovejo que, no século XVI, deu um forte impulso à evangelização e à catequese
A peculiaridade do novo Diretório é o estreito vínculo entre evangelização e catequese, que sublinha a união entre o primeiro anúncio e o amadurecimento da fé, à luz da cultura do encontro. Essa peculiaridade - explica ele - é mais necessária diante de dois desafios para a Igreja na era contemporânea: a cultura digital e a globalização da cultura. Em mais de 300 páginas, divididas em 3 partes e 12 capítulos, o texto lembra que toda pessoa batizada é um discípulo missionário e que esforços e responsabilidades são urgentemente necessários para encontrar novas linguagens com as quais comunicar a fé. Três são os princípios básicos com quais se pode agir: o testemunho, porque "a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração"; misericórdia, a catequese autêntica que torna credível a proclamação da fé e diálogo, livre e gratuito, que não obriga, mas que, a partir do amor, contribui para a paz. Dessa forma - explica o Diretório - a catequese ajuda os cristãos a dar pleno sentido à sua existência.
A formação dos catequistas
Em sua primeira parte, intitulada "A catequese na missão evangelizadora da Igreja", o texto se concentra, em particular, na formação dos catequistas: para que eles sejam testemunhas credíveis da fé, devem " ser  catequistas antes mesmo de  fazer os catequistas "e, portanto, terão que trabalhar com gratuidade, dedicação, coerência, segundo uma espiritualidade missionária que os afaste do "esforço pastoral estéril" e do individualismo. Professores, educadores, testemunhas e catequistas devem acompanhar a liberdade dos outros com humildade e respeito. Ao mesmo tempo, será necessário "estar vigilante para garantir que todas as pessoas, especialmente menores e pessoas vulneráveis, tenham proteção absoluta garantida contra qualquer forma de abuso". Os catequistas também são convidados a adotar um "estilo de comunhão" e a serem criativos no uso de ferramentas e linguagens.
A linguagem da catequese: narração, arte, música 
O desafio da linguagem está presente, em particular, na segunda parte do Diretório, intitulada "O processo de catequese". Numerosas modalidades expressivas mencionadas, a partir da narração, definida como "um modelo comunicativo profundo e eficaz", pois são capazes de entrelaçar, de modo fecundo, a história de Jesus, a fé e a vida dos homens. Depois, é importante a arte que, por meio da contemplação da beleza, permite fazer a experiência do encontro com Deus, enquanto que a música, especialmente a música sacra, instila no espírito humano o desejo pelo infinito.
Catequese na vida das pessoas: a importância da família
 Quando a catequese se torna concreta na vida das pessoas é que emerge claramente a importância da família: um sujeito ativo de evangelização e um lugar natural para viver a fé de maneira simples e espontânea. Oferece, de fato, uma educação cristã “que mais testemunha do que ensina”, por um estilo humilde e compassivo. Diante de situações irregulares e de novos cenários familiares presentes na sociedade contemporânea, nos quais há um esvaziamento do significado transcendente da família, a Igreja pede que se acompanhe na fé, com proximidade, escuta e compreensão, numa ótica de cuidado, respeito e solicitude, para devolver a todos a confiança e a esperança e superar a solidão e a discriminação. A catequese também será projetada de acordo com as faixas etárias de seus destinatários: crianças, jovens, adultos, idosos. Mas, embora diversificada nas linguagens, deve ter um estilo único: o de acompanhamento, que torna os catequistas testemunhas credíveis, convictos e comprometidos, discretos mas presentes, capazes de valorizar as qualidades de cada fiel e de fazê-lo se sentir acolhido e reconhecido dentro da comunidade cristã.
"Cultura de inclusão" e acolhimento de deficientes e migrantes
Hospitalidade e reconhecimento são as palavras-chave que devem acompanhar também a catequese com as pessoas com deficiência: diante do constrangimento e do medo que podem despertar, porque lembram a dor e a morte, será importante responder com uma "cultura de inclusão" que vença a “da exclusão”. As pessoas com deficiência são, de fato, testemunhas das verdades essenciais da vida humana, como a vulnerabilidade e a fragilidade, devendo, portanto, ser aceitas como um grande dom, enquanto suas famílias merecem "respeito e admiração". Outra categoria específica mencionada pelo Diretório é dos migrantes que, longe de sua terra natal, podem sofrer uma crise de fé: para eles também, a catequese terá que se concentrar em acolhida, confiança e solidariedade, a fim de que sejam sustentados na luta contra os preconceitos e aos graves perigos em que possam sucumbir, como o tráfico de seres humanos. 
A prisão, "autêntica terra missionária"; a opção preferencial pelos pobres
O documento, ainda, olha para as prisões como uma "autêntica terra de missão": para os presos, a catequese será o anúncio da salvação em Cristo, perdão e libertação, juntamente com uma escuta atenta que mostra o rosto materno da Igreja. Entre as categorias mais marginalizadas, a Igreja não esquece os pobres: a opção preferencial por eles seja também  "atenção espiritual" - pede o Diretório - lembrando o primado da caridade e a importância de um dinamismo missionário que, no encontro com o mais necessitado, realize o encontro com Cristo. "A Igreja também - recomenda o texto - é chamada a experimentar a pobreza como abandono total a Deus, sem confiar nos meios mundanos". Nesse contexto, a catequese deve educar para a pobreza evangélica, promover a cultura da fraternidade e fomentar nos fiéis a indignação pelas situações de miséria e injustiça. Além disso, nas proximidades do Dia Mundial dos Pobres, a reflexão catequética deve ser acompanhada de "um compromisso concreto e direto, com sinais tangíveis de atenção aos pobres e marginalizados".
Paróquias, associações e escolas católicas
Na terceira parte, dedicada à "catequese nas Igrejas Particulares", emerge, sobretudo, o papel das paróquias, associações e movimentos eclesiais e das escolas católicas. Das primeiras, definidas como "exemplo de apostolado comunitário", destaca-se a "plasticidade" que as torna capazes de uma catequese criativa, "em escuta" e "em saída”  em relação às experiências das pessoas. Das associações e movimentos, por outro lado, é lembrada a "grande capacidade evangelizadora" que os torna uma "riqueza da Igreja", desde que cuidem da formação e da comunhão eclesial. Quanto às escolas católicas, eles são instadas a mudar de escolas-instituições para escolas-comunidades ou comunidades, ou seja, de fé com um projeto educativo baseado nos valores do Evangelho.
Ensino de religião e catequese: distintos, mas complementares
Nesse contexto, um parágrafo à parte é dedicado ao ensino da religião, que - enfatiza - é distinto, mas complementar à catequese, e é caracterizado por dois aspectos: o entrar em relações com outros conhecimentos e saber transformar o conhecimento em sabedoria da vida. "O fator religioso é uma dimensão da existência e não deve ser esquecido", diz o Diretório; portanto, "é direito dos pais e dos alunos" receber uma formação integral que também leve em consideração o ensino da religião. O importante é que isso sempre ocorra através de um diálogo aberto e respeitoso, livre de conflitos ideológicos.
Pluralismo cultural e pluralismo religioso: a relação com o judaísmo e o islã
Um grande capítulo enfoca os diferentes cenários contemporâneos com os quais a catequese deve se confrontar: pluralismo cultural que leva ao tratamento superficial de questões morais; os contextos urbanos difíceis, muitas vezes desumanos, violentos e segregantes; o confronto com os povos indígenas que requer conhecimento adequado para superar os preconceitos; a piedade popular e seu ser, por um lado, um "lugar teológico" e "reserva de fé", mas, por outro, o correr o risco de se abrir para superstições e seitas. Em todos esses ambientes, a catequese é chamada a trazer esperança e dignidade, a superar o anonimato e a promover a proteção ambiental. Setores especiais também são os do ecumenismo e do diálogo inter-religioso com o judaísmo e o islamismo: em relação ao primeiro ponto, o Diretório enfatiza como a catequese deve "despertar o desejo de unidade" entre os cristãos, para ser "um instrumento credível de evangelização". Quanto ao judaísmo, convida-se um diálogo que combata o antissemitismo e promova a paz e a justiça. Diante do fundamentalismo violento que, às vezes, pode se encontrar no Islã, a Igreja pede que evitem generalizações superficiais, promovendo o conhecimento e o encontro com os muçulmanos. De qualquer forma, em um contexto de pluralismo religioso, a catequese deverá "aprofundar e fortalecer a identidade dos crentes", ajudando-os no discernimento e promovendo seu impulso missionário por meio de testemunho, da colaboração e do diálogo "afável e cordial". Quanto ao judaísmo, convida-se um diálogo que combate o antissemitismo e promova a paz e a justiça. Diante do fundamentalismo violento que às vezes se encontra no Islã, a Igreja pede que evitem generalizações superficiais, promovendo o conhecimento e encontro com muçulmanos. De qualquer forma, em um contexto de pluralismo religioso, a catequese deve "aprofundar e fortalecer a identidade dos crentes", ajudando-os a serem discernidos e promovendo seu ímpeto missionário por meio de testemunho, colaboração e diálogo "afável e cordial". 
 O mundo digital: luzes e sombras
A reflexão do Diretório passa então ao tema digital: primeiro, reitera-se a importância de garantir, na “rede”, uma presença, que testemunhe os valores do Evangelho. Portanto, os catequistas são instados a educar as pessoas sobre o bom uso do digital: em particular, os jovens deverão ser acompanhados, pois o mundo virtual pode ter profundas repercussões no gerenciamento das emoções e na construção da identidade. Hoje, a cultura digital - continua o documento - é percebida como "natural", tanto que mudou a linguagem e as hierarquias de valores em escala global. Rico em aspectos positivos (por exemplo, enriquece as habilidades cognitivas e promove informações independentes para proteger as pessoas mais vulneráveis), ao mesmo tempo em que o mundo digital também possui um "lado sombrio": pode trazer solidão, manipulação, violência, cyberbullying, preconceitos, ódio. Não apenas isso: a narrativa digital é emocional, intuitiva e envolvente, mas é desprovida de análises críticas, acabando por tornar os destinatários simples usuários, em vez de decodificadores de uma mensagem. Sem esquecer a atitude quase "fideísta" que você pode ter em relação, por exemplo, a um mecanismo de pesquisa.
Combater a cultura do instantâneo
Então, o que a catequese pode fazer nesse setor? Educar, antes de tudo, para combater  a "cultura do instantâneo", desprovida de hierarquias e perspectivas de valor, fraca na memória e incapaz de distinguir verdade e qualidade. Acima de tudo, os jovens serão acompanhados na busca de uma liberdade interior que os ajude a se diferenciar do "rebanho social". "O desafio da evangelização envolve o da inculturação no continente digital", afirma o Diretório, reiterando a importância de oferecer espaços de experiência de fé autêntica, capazes de fornecer chaves interpretativas para temas fortes, como corporalidade, afetividade, justiça e paz.
Ciência e fé: conflitos aparentes, testemunho de cientistas cristãos
O documento enfoca a ciência e a tecnologia. Reafirmando que devem se orientar para a melhoria das condições de vida e o progresso da família humana, colocando-se assim a serviço da pessoa, ao mesmo tempo em que o Diretório recomenda uma catequese bem preparada e aprofundada que saiba combater uma divulgação científica e tecnológica muitas vezes imprecisa. Por isso, exorta-nos a eliminar preconceitos e ideologias e a esclarecer os aparentes conflitos entre ciência e fé, além de valorizar o testemunho de cientistas cristãos, um exemplo de harmonia e síntese entre os dois. O cientista, de fato, busca a verdade com sinceridade, se inclina à comunicação e ao diálogo, ama a honestidade intelectual e pode, portanto, favorecer a inculturação da fé na ciência.
Bioética: nem tudo o que é tecnicamente possível é moralmente admissível
Uma reflexão, à parte, contudo, deve ser feita para a bioética, partindo do pressuposto de que "nem tudo o que é tecnicamente possível é moralmente admissível". Portanto, será necessário distinguir entre intervenções terapêuticas e manipulações, e prestar atenção à eugenética e às discriminações que ela implica. Quanto à denominação de "gênero", recorde-se que a Igreja acompanha "sempre e em qualquer situação", sem julgar, pessoas que vivem situações complexas e, às vezes, conflitantes. No entanto, "numa perspectiva de fé, a sexualidade não é apenas um dado físico, mas é uma realidade pessoal, um valor confiado à responsabilidade da pessoa", "uma resposta ao chamado original de Deus". Em bioética, portanto, os catequistas precisarão de treinamento específico que parte do princípio da sacralidade e inviolabilidade da vida humana, que contrastam a cultura da morte. Nesse sentido, o Diretório condena a pena de morte, definida como "uma medida desumana que humilha a dignidade da pessoa".
Conversão ecológica, compromisso social e proteção ao emprego
Entre as outras questões abordadas no documento, a referência a uma "profunda conversão ecológica" a ser promovida através de uma catequese atenta à proteção da Criação, inspiradora de uma vida virtuosa, longe do consumismo, porque "a ecologia integral é parte integrante da vida cristã". Há também um forte incentivo a um compromisso social ativo dos católicos, para agirem em favor do bem comum,  combatendo as estruturas do pecado com a retidão moral e a abertura ao diálogo. Quanto ao mundo do trabalho, exorta-se a evangelização de acordo com a Doutrina Social da Igreja, com especial atenção à defesa dos direitos dos mais fracos. Finalmente, os dois últimos capítulos do Diretório enfocam os catecismos locais, com as indicações relativas para obter a aprovação da Sé Apostólica, e sobre os organismos a serviço da catequese, entre eles o Sínodo dos Bispos e as Conferências Episcopais. 
Fonte: site do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização – 25.06.2020
Artigo de Isabella Piro 
Tradução Marlene Maria Silva

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Artigo de julho 2020 - Padre Aparecido Neres Santana, CSS


Discípulos missionários, semeadores do reino da vida!

Neste Artigo Bíblico-Catequético-Missionário refletiremos sobre o Evangelho de São Mateus (13,1-9). No capítulo 13 Jesus ilustra essa prática contando parábolas, cuja mensagem principal é revelar o mistério e a força do Reino agindo como semente que fecunda a vida em meio a projetos em conflitos. Parábola vem do grego parabolê, verbete formado por duas palavras. Uma delas é pará, cujo significado é “ao lado de”, “ao longo de”, “para além de”. A outra é bolê, que vem também do grego que significa “jogar”, “lançar”. Portanto, parábola quer dizer “jogar para além de”, “lançar ao longo de”. A parábola sinaliza algo além, provoca uma busca de algo mais profundo. Parábolas são narrativas alegóricas, figuradas, e querem transmitir uma mensagem. Conduzem-nos para além da imagem, para realidades mais profundas. As parábolas são, em Mateus, um meio eficaz de catequese eclesial. Compreendida a etimologia (origem) da palavra, vamos ao texto. Primeiramente, a Parábola do Semeador é introdutória das outras seis parábolas a seguir, e todas têm a finalidade de falar do Reino de Deus, com uma metodologia bastante simples, a partir da natureza. O centro da explicação do texto está na contraposição entre, quem não a compreende (a multidão) e quem a compreende (os discípulos). A comunidade de Mateus quer encorajar os discípulos diante das perseguições e mortes. A comunidade está preocupada com os cristãos desanimados, preguiçosos e descomprometidos com o Reino. O texto mostra que em três casos não se consegue o resultado satisfatório da semente plantada (missão/palavra/compromisso). Nota-se que quatro versículos são dedicados ao fracasso da missão. Portanto, não obstante o repetido insucesso, existe uma semente que produz fruto em abundância. A parábola quer nos assegurar que haverá frutos, apesar dos grãos perdidos, como no evento da pesca milagrosa: “Pedro disse vou pescar... naquela noite nada pescaram... disse Jesus lançai as redes mais uma vez...” (Mt 21,3ss). Aqui podemos compreender que o Reino vai acontecer, porque é de Deus. A nossa missão é semear a palavra, quem colhe os frutos é o Senhor: “Eis que o semeador saiu para semear” (Mt,13,4), mas não diz que ele voltou pra colher. Por isso, como semeadores da vida, do amor, da justiça e da misericórdia, não devemos desanimar nos obstáculos, pois os obstáculos, com a fé, conseguimos superá-los, especialmente com a força e unidade da comunidade de fé. Somos discípulos/missionários com o vigor que nos advém da palavra de Deus, com a força do Senhor da vida. Coragem! 

Para refletirmos: Diante de tudo que refletimos, superar este tempo presente, de pandemia, marcado pelo sofrimento do povo com a crise social, política, econômica e sanitária, devemos entendê-lo também, como tempo de esperança. Dificuldade, para semear o Reino, em todos os níveis, especialmente para catequizar e fazer-se próximo. Como superar? Como semear? Como reanimar- -se na estrada da vida? Como consolar-se e consolar as pessoas feridas, machucadas pela perda de entes queridos?

Pe. Aparecido Neres Santana - Assessor Eclesiástico da Comissão AB-C Diocese de Santos/SP.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Novo Diretório para a Catequese: “É urgente uma conversão pastoral".


“Na era digital, vinte anos podem ser comparados, sem exageros, a pelo menos meio século”. A observação é de Dom Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a promoção da Nova Evangelização, durante a apresentação nesta quinta-feira (25/06) na Sala de Imprensa da Santa Sé do “Novo Diretório para a Catequese”.

Considerar o que está surgindo

O documento nasceu da necessidade de levar em consideração "com grande realismo o novo que está surgindo, com a tentativa de propor uma leitura que envolvesse a catequese". É por esta razão que o Diretório apresenta "não apenas os problemas inerentes à cultura digital, mas também sugere caminhos para serem tomados para que a catequese se torne uma proposta que encontre o interlocutor capaz de compreendê-la e ver sua adequação com seu próprio mundo". 

Recordar os Sínodos

“Viver cada vez mais a dimensão sinodal não pode nos fazer esquecer os últimos Sínodos que a Igreja viveu", explicou Fisichella. O presidente do Dicastério mencionou em particular o Sínodo sobre a Nova Evangelização e transmissão da fé de 2012, com a consequente Exortação Apostólica do Papa Francisco Evangelii gaudium, e o 25º aniversário da publicação do Catecismo da Igreja Católica, que afeta diretamente a competência do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.

Conversão pastoral

"A evangelização ocupa o primeiro lugar na vida da Igreja e no ensinamento diário do Papa Francisco", observou o prelado: “Portanto, a catequese deve estar intimamente ligada à obra de evangelização e não pode ser separada dela. Ela precisa assumir em si mesma as próprias características da evangelização, sem cair na tentação de se tornar um substituto para ela ou de querer impor suas próprias premissas pedagógicas à evangelização”. Disso podemos ver o primado do "primeiro anúncio" e o vínculo entre evangelização e catecumenato, "como experiência do perdão oferecido e da nova vida de comunhão com Deus que se segue". Segundo Fisichella, "é urgente realizar uma 'conversão pastoral' a fim de liberar a catequese de certos laços que a impedem de ser eficaz".
O primeiro ponto pode ser identificado no esquema escolar, segundo o qual a catequese de Iniciação Cristã é vivida no paradigma da escola. O segundo é a mentalidade com a qual a catequese é feita a fim de receber um sacramento. Um terceiro é a instrumentalização do sacramento para o trabalho pastoral, de modo que os tempos do sacramento da Confirmação sejam estabelecidos pela estratégia pastoral de não perder o pequeno rebanho de jovens que não abandonaram a paróquia e não pelo significado que o sacramento possui em si mesmo na economia da vida cristã".
(Fonte: Agência Sir – M.N.)
Vatican News 25.06.2020

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Apresentação do novo Diretório para a Catequese em Roma.


A publicação de um Diretório para a Catequese representa um acontecimento feliz para a vida da Igreja. Com efeito, pode constituir um desafio positivo para todos os que se dedicam ao grande empenho da catequese, uma vez que permite experimentar a dinâmica do movimento catequético que sempre teve uma presença significativa na vida da comunidade cristã. O Diretório para a Catequese é um documento da Santa Sé oferecido a toda a Igreja. Necessitou de muito tempo e trabalho, e chega até nós como conclusão de uma vasta consulta internacional. Hoje é apresentada a edição oficial em língua italiana. No entanto, já estão prontas as traduções em espanhol (edição para a América Latina e para a Espanha), português (edição para o Brasil e para Portugal), inglês (edição para os EUA e para o Reino Unido), francês e polaco. Dirige-se em primeiro lugar aos Bispos, primeiros catequistas entre o Povo de Deus, na medida em que são os primeiros responsáveis pela transmissão da fé (cf. n. 114). Juntamente com eles são envolvidas as Conferências episcopais, com as respetivas Comissões para a catequese, para partilhar e elaborar um desejável projeto nacional que apoie o caminho de cada diocese (cf. n. 413). No entanto, os mais diretamente envolvidos no uso do Diretório são os sacerdotes, os diáconos, as pessoas consagradas e os milhões de catequistas que, todos os dias, desempenham o seu ministério com gratuidade, esforço e esperança nas diferentes comunidades. A dedicação com que trabalham, sobretudo num momento de transição cultural como este, é sinal palpável de quanto o encontro com o Senhor pode transformar um catequista num genuíno evangelizador.
Desde o Concílio Vaticano II, este que apresentamos hoje é o terceiro Diretório. O primeiro de 1971, Diretório catequístico geral, e o segundo de 1997, Diretório geral da catequese, marcaram estes últimos cinquenta anos de história da catequese. Estes textos desempenharam um papel primordial. Constituíram uma ajuda importante para levar o caminho catequético a dar um passo decisivo, sobretudo através da renovação da metodologia e da instância pedagógica. O processo de inculturação que caracteriza de modo particular a catequese e que, sobretudo nos nossos dias, obriga a ter uma atenção bastante particular exigiu a composição de um novo Diretório.
A Igreja está diante de um grande desafio que se concentra na nova cultura com a qual se vai encontrando, a cultura digital. Centrar a atenção num fenómeno que se impõe como global obriga todos os que têm responsabilidade da formação a evitar subterfúgios. Diversamente do passado, quando a cultura estava limitada ao contexto geográfico, a cultura digital tem um valor que sente os efeitos da globalização em curso e determina o seu desenvolvimento. Os instrumentos criados nesta década são a manifestação de uma transformação radical dos comportamentos que incidem sobretudo na formação da identidade pessoal e nas relações interpessoais. A velocidade com que se modifica a linguagem, e com ela também as relações comportamentais, deixa vislumbrar um novo modelo de comunicação e de formação que toca inevitavelmente também a Igreja no complexo mundo da educação. A presença das várias expressões eclesiais no vasto mundo da internet constitui certamente um facto positivo, mas a cultura digital vai muito para além disso. Ela toca a raiz da questão antropológica decisiva em qualquer contexto formativo, como o da verdade e da liberdade. O próprio facto de colocar esta problemática impõe que se verifique a adequação da proposta formativa, venha donde vier. Ela torna-se, no entanto, um confronto imprescindível para a Igreja, em virtude da sua “competência” sobre o homem e a sua pretensão de verdade.
Talvez esta premissa fosse suficiente para demonstrar a necessidade de um novo Diretório para a catequese. Na época digital, vinte anos são comparáveis, sem exagero, a pelo menos meio século. Daqui resultou a exigência de redigir um Diretório que tivesse em conta, com grande realismo, a novidade que se apresenta, na tentativa de propor uma leitura dessa mesma novidade que envolvesse a catequese. É por este motivo que o Diretório apresenta não apenas as problemáticas inerentes à cultura digital, mas sugere também os percursos a realizar para que a catequese se torne uma proposta que encontra o interlocutor que seja capaz de a compreender e de ver como se adequa ao seu mundo.
No entanto, existe uma razão mais de ordem teológica e eclesial que convenceu a redigir este Diretório. O convite a viver cada vez mais a dimensão sinodal não pode deixar esquecer os últimos Sínodos que a Igreja viveu. Em 2005 o Sínodo sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja; em 2008, A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja; em 2015, A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo; em 2018, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional. Como se pode observar, em todas estas assembleias, repetem-se algumas constantes que tocam de perto o tema da evangelização e da catequese, o que se pode verificar pelos documentos que se lhes seguiram. De modo mais particular é forçoso referir-nos a dois acontecimentos que, de forma complementar, marcam a história desta última década no que se refere à catequese: o Sínodo sobre a Nova evangelização e a transmissão da fé, em 2012, com a consequente Exortação apostólica do Papa Francisco Evangelii gaudium, e o vigésimo quinto aniversário da publicação do Catecismo da Igreja Católica, ambos tocando diretamente a competência do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização.
A evangelização ocupa o primeiro lugar na vida da Igreja e no magistério quotidiano do Papa Francisco. Não poderia ser de outro modo. A evangelização é a tarefa que o Senhor Ressuscitado confiou à sua Igreja para ser no mundo de cada tempo o anúncio fiel do seu Evangelho. Prescindir deste pressuposto equivaleria a transformar a comunidade cristã numa das muitas associações beneméritas, orgulhosa dos seus dois mil anos de história, mas não a Igreja de Cristo. A perspetiva do Papa Francisco, nomeadamente, está em forte continuidade com os ensinamentos de São Paulo VI na Evangelii nuntiandi, de 1975. Os dois não fazem outra coisa que não seja referir-se à riqueza que brotou do Vaticano II que, no que se refere à catequese, encontrou na Catechesi tradendae (1979) de São João Paulo II o seu ponto central.
Portanto, a catequese deve estar intimamente unida à obra de evangelização e não pode prescindir dela. Precisa de assumir em si as características próprias da evangelização, sem cair na tentação de se substituir a ela ou de querer impor à evangelização os seus pressupostos pedagógicos. Nesta relação, o primado pertence à evangelização e não à catequese. Isto permite compreender por que razão, à luz da Evangelii gaudium, este Diretório se qualifica por sustentar uma “catequese querigmática”.
O coração da catequese é o anúncio da pessoa de Jesus Cristo, que ultrapassa os limites de espaço e de tempo para se apresentar a cada geração como a novidade oferecida para alcançar o sentido da vida. Nesta perspetiva, é indicada uma nota fundamental de que a catequese deve apropriar-se: a misericórdia. O querigma é anúncio da misericórdia do Pai que vai ao encontro do pecador, não mais considerado como um excluído, mas como convidado privilegiado ao banquete da salvação que consiste no perdão dos pecados. Se quisermos, é neste contexto que ganha força a experiência do catecumenato como experiência do perdão oferecido e da consequente vida nova de comunhão com Deus.
No entanto, a centralidade do querigma deve ser recebida em sentido qualitativo e não temporal. Efetivamente, requer que esteja presente em todas as fases da catequese e de todas as catequeses. É o “primeiro anúncio” que é feito sempre, porque Cristo é o único necessário. A fé não é algo de óbvio que se recupera nos momentos de necessidade, mas é um ato de liberdade que compromete toda a vida. Portanto, o Diretório assume a centralidade do querigma que se exprime em sentido trinitário como compromisso de toda a Igreja. A catequese, tal como é expressa pelo Diretório, caracteriza-se por esta dimensão e pelas implicações que confere à vida das pessoas. Neste horizonte, toda a catequese adquire um valor peculiar que se exprime no aprofundamento constante da mensagem evangélica. Enfim, a catequese tem a finalidade de fazer alcançar o conhecimento do amor cristão que leva aqueles que o acolheram a tornarem-se discípulos evangelizadores.
Diretório desdobra-se tocando várias temáticas que não fazem outra coisa que não seja remeter para o objetivo de fundo. Uma primeira dimensão é a mistagogia que é apresentada através de dois elementos complementares entre si: antes de mais, uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã; depois, o amadurecimento progressivo do processo formativo em que é envolvida toda a comunidade. A mistagogia é um caminho privilegiado a seguir, mas não é facultativo no percurso catequético, permanece como um momento obrigatório, uma vez que insere cada vez mais no mistério acreditado e celebrado. É a consciência do primado do mistério que leva a catequese a não isolar o querigma do seu contexto natural. O próprio anúncio da fé é sempre anúncio do mistério do amor de Deus que se faz homem pela nossa salvação. A resposta não pode evitar o facto de acolher em si o mistério de Cristo que permite iluminar o mistério da própria experiência pessoal (cf. GS 22).
Uma característica ulterior de novidade do Diretório é a ligação entre evangelização e catecumenato nas suas várias aceções (cf. n. 62). É urgente levar a cabo a “conversão pastoral” para libertar a catequese de algumas armadilhas que impedem a sua eficácia. O primeiro pode ser identificado no esquema escolar, segundo o qual a catequese de iniciação cristã é vivida no paradigma da escola. A catequista substitui a professora, a sala da escola dá lugar à sala de catequese, o calendário escolar é idêntico ao da catequese… O segundo é a mentalidade segundo a qual a catequese é feita em vista da receção de um sacramento. É óbvio que, quando a iniciação tiver terminado, se venha a criar um vazio para a catequese. Um terceiro é a instrumentalização do sacramento por parte da pastoral, pelo que os tempos do sacramento da Confirmação são estabelecidos pela estratégia pastoral de não perder o pequeno rebanho de jovens que ficou na paróquia e não pelo significado que o sacramento possui em si mesmo na economia da vida cristã.
O Papa Francisco escreveu que “anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de preencher a vida de um novo esplendor e de uma alegria profunda, mesmo no meio das provações. Nesta perspetiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como uma vereda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus … Torna-se necessário que a formação na via pulchritudinis esteja inserida na transmissão da fé” (EG 167). Uma nota de particular valor inovador para a catequese pode ser expressa pela via da beleza sobretudo para permitir conhecer o grande património de arte, literatura e música que cada Igreja local possui. Neste sentido, compreende-se por que razão o Diretório colocou a via da beleza como uma das “fontes” da catequese (cf. nn. 106-109).
Uma última dimensão oferecida pelo Diretório está no facto de ajudar a inserir-se progressivamente no mistério da fé. Esta conotação não pode ser delegada apenas a uma dimensão da fé ou da catequese. A teologia explora o mistério revelado com os instrumentos da razão. A liturgia celebra e evoca o mistério com a vida sacramental. A caridade reconhece o mistério do irmão que estende a mão. Na mesma linha, a catequese leva progressivamente a acolher e viver globalmente o mistério na existência quotidiana. O Diretório assume esta visão, quando pede que se exprima uma catequese que saiba encarregar-se de manter unido o mistério, embora articulando-o nas diversas fases de expressão. O mistério, quando é captado na sua realidade profunda, exige o silêncio. Uma verdadeira catequese nunca terá a tentação de dizer tudo sobre o mistério de Deus. Pelo contrário, deverá introduzir à vida da contemplação do mistério, fazendo do silêncio a sua conquista.
Portanto, o Diretório apresenta a catequese querigmática não como uma teoria abstrata, mas como um instrumento com forte valor existencial. Esta catequese tem o seu ponto de força no encontro que permite que se experimente a presença de Deus na vida de cada um. Um Deus próximo que ama e que segue as vicissitudes da nossa história porque a encarnação do Filho o compromete diretamente. A catequese deve envolver cada pessoa, catequista e catequizando, no facto de experimentar esta presença e de se sentir envolvido na obra da misericórdia. Enfim, uma catequese deste tipo permite descobrir que a fé é realmente o encontro com uma pessoa, ainda antes de ser uma proposta moral, e que o cristianismo não é uma religião do passado, mas um acontecimento do presente. Uma experiência como esta favorece a compreensão da liberdade pessoal, porque é fruto da descoberta de uma verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,31).
A catequese que dá o primado ao querigma está nos antípodas de qualquer imposição, nem que fosse a de uma evidência sem qualquer possibilidade de fuga. Com efeito, a escolha de fé, ainda antes de considerar os conteúdos aos quais aderir com o assentimento de cada um, é um ato de liberdade, na medida em que se descobre que se é amado. Neste âmbito, é bom que se considere com atenção o que propõe o Diretório acerca da importância do ato de fé na sua dupla articulação (cf. n. 18). Durante demasiado tempo a catequese centrou os seus esforços em dar a conhecer os conteúdos da fé e na pedagogia com a qual os devia transmitir, descurando infelizmente o momento mais determinante que é o ato de cada um escolher a fé e dar o seu assentimento.
Fazemos votos de que este novo Diretório para a Catequese possa servir verdadeiramente de ajuda e de apoio à renovação da catequese no processo único de evangelização que, desde há dois mil anos, a Igreja não se cansa de realizar, para que o mundo possa encontrar Jesus de Nazaré, o Filho de Deus feito homem para nossa salvação.
Mons. Rino Fisichella
[00812-PO.01] [Texto original: Italiano]
Boletim da Sala de Imprensa do Vaticano 25.06.2020


Apresentação do Novo Diretório para a Catequese, hoje, dia 25 de junho, às 15h no canal do YouTube 
Participação do presidente da CNBB, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte; Dom Antonio Peruzzo, arcebispo de Curitiba e presidente da Comissão Bíblico-Catequética da CNBB e Dom Joel Portela, secretário da CNBB e bispo auxiliar do Rio de Janeiro.
Participam os assessores nacionais de Catequese: Pe. Janison e Ir. Isabel.